Possessão - (A.C.Lima)



"Quando meus pensamentos já não se explicam,

Quando sou só noite e tempestade,

mas desejo ser brisa pairo entre o espaço, o tempo, e o ar.

viro letra e lembro que sei voar... (A.C.Lima)"





O corpo já não respondia suas ações. Os sentidos já não decodificavam o som ao redor e o corpo todo navegava do devaneio ao caos em instantes, como que preso em um redemoinho de sensações. Já não eram mãos ou bocas, nem pele ou músculos. Eram algo aparte da natureza, algo estranho e irresistivelmente atormentador.



O estalar de pele e o contrair de músculos interruptamente, entre sussurros de silêncio no desenrolar da loucura, buscava em vão verbalizar o que a lógica ordenava. Incapaz. A garganta impotente, não pronunciava o som, calando a voz. Como se seu corpo já não fosse seu, e possuído por outro, subjugado e amarrado a caprichos alheios, se sentisse finalmente em casa. Como que retornado a vontade do legitimo dono e alheio àquele que nele morava.



E da pele o doce néctar, preparado no friccionar de toques e aquecer de corpos, escorria perigoso entre todas as curvas, por todos os poros. Um calor abrupto e desconcertante dispensava qualquer vestimenta. E um frio suspenso pairava sob o toque audaz arrepiando a pele. Suspensa entre o tempo, o espaço e o ar, a razão observava -em um misto de impressões- o dançar de corpos que sem música valsavam a sóis como crianças perdidas, como serpente e dragão, onda e areia. Corpos possessos, calados e sem voz.

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