Pensando Sobre o poder- parte II

Muitos acusam as analises de Foucault (como por exemplo, Habermas e Taylor) de pessimistas já que ele não deixa nenhuma saída para as relações do poder disciplinar. No entanto cabe perguntar se viveríamos em um mundo sem relações de poder? Sendo obvia a resposta, cabe perguntar então por que evitar discutir as questões de poder na prática pedagógica não como um mal necessário, ou como um chaga negra a ser extirpada, mas sim como algo intrínseco a uma pratica algo que deve e pode ser questionado, discutido, analisado? São essas as perguntas que me levam a pensar, e a questionar o discurso e prática pedagógica no que concernem as relações de poder.

Podemos dizer baseado em Enguita que a organização da instituição escolar permanece quase que inalterada ao longo da história. As mudanças organizacionais ocorreram entre longos intervalos, ou seja, apenas algumas gerações puderam vislumbrar alguma mudança relevante na estrutura organizacional do processo educativo, enquanto que a maioria passou por todo o processo sem presenciar nenhuma revolução ou mudança. Mudam-se os conteúdos e até a nomenclatura do método, porém a organização funcional da escola é a mesma.




No entanto pode-se observar uma desvalorização – mesmo que só no discurso de senso comum – desta parte funcional da instituição escolar que origina as idéias mais prosaicas sobre a escola e professores. É questionável o fato de a escola ser tantas vezes, mas observada por suas idéias e tão pouco por suas praticas (ENGUITA,1989). Os conteúdos explícitos que a escola visa transmitir apesar de importantes na constituição da sociedade que somos nos permitem questionar se por si só justificam a existência de um aparato tão monstruosamente complexo como é a escola? Esse questionamento se torna ainda mais pertinente quando nos defrontamos com a quantidade e velocidade de informação que circula no nosso cotidiano em todas as formas de mídias.


E ainda que essas considerações fossem ignoradas, e acatássemos a premissa de que a escola existe pra transmitir conhecimentos seculares, mesmo nessa visão dos depararíamos com uma intensa relação de poder ao vislumbrar uma nada ingênua hierarquização de saberes – quando se definem qual saber ensinar, quando ensinar, na visão de quem ensinar – onde obviamente não existe uma relação de neutralidade.


“O processo pedagógico corporifica relações de poder entre professores e aprendizes com respeito às questões de saber: qual saber é valido, qual saber é produzido, o saber de quem. A pedagogia se baseia em técnicas particulares de governo, cujo desenvolvimento pode ser traçado historicamente/arqueologicamente, e produz e reproduz, em diferentes momentos, regras e práticas particulares.” (SILVA,1995)


Para além dessa hierarquização de saberes, que a escola habilmente efetua, existe uma forte interiorização da norma, do regulamento, da docialização do corpo que ocorre dentro da escola. Como coloca Foucault (1994) o momento histórico em que nasce a disciplina, nasce também uma arte do corpo humano. Um corpo fácil de ser controlado é um corpo fácil de ser subordinado, os ritos escolares como coloca Enguita - quando faz referência a Althusser- são o mais explicito exemplo de como dentro da instituição escolar a disciplina do corpo é tão importante para o decorrer da aula.



O poder disciplinar consiste em fazer que o indivíduo se sinta em constante vigilância, e por saber-se em sempre em visibilidade retorna por própria vontade as limitações do poder, fazendo-o com que estas funcionem sobre si (FOUCAULT, 1994), nisso está à importância de um corpo dócil.


As relações de poder impregnam o conteúdo (relação poder-saber), as práticas (poder disciplinar) e o discurso pedagógico (regimes de verdade). E no discurso temos potencializado as relações de poder da educação escolar.

“Os discursos, como os silêncios, nem são submetidos de uma vez por todas ao poder, nem opostos a ele. É preciso admitir um jogo complexo e instável em que o discurso pode ser, ao mesmo tempo, instrumento e efeito de poder, e também obstáculo, ancora, ponto de resistência e ponto de partida de uma estratégia oposta. O discurso veicula e produz poder;reforça-o mas também o mina, expõe, debilita e permite barrá-lo...não existe um discurso do poder de um lado e, em face dele, um outro, contraposto[...].” (FOUCAULT,1985)

As analises de Foucault levantam dúvida sobre a possibilidade e desejabilidade de dar resposta algum dia à questão: Que práticas e discursos pedagógicos são libertadores? Já que nos leva a questionar os discursos dentro de si mesmo, não aceitando que sejam ingênuos, pelo contrario contesta asserções de verdade e asserções de inocência em todos os discursos educacionais.

 Como coloca Marshall (SILVA, 1995), como profissionais da Educação, devemos registrar as fortes descrições de Foucault e repensar conceitos educacionais como “autoridade”, “poder”, “disciplina” e “pedagogia”. Isso não significa ridicularizar, suplantar ou tornar falsas outras abordagens dessas noções, mas mostrar um outro aspecto, ou uma outra máscara da realidade.

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