Trechos do meu ensaio sobre leitura

 Quando me propus a escrever sobre leitura, me propus a escrever em suma sobre o desenvolvimento de possessões, posto que a leitura, como coloca Rubem Alves em um de seus textos – principalmente a leitura em voz alta –, é quando o leitor esta possuído pelo texto. Muito se diz sobre o ato de ler, talvez por ser prática intimamente ligada com as questões de status social, mesmo nas camadas mais pobres, por exemplo, a leitura tem um lugar de destaque. No Brasil apesar dos dados estatísticos, afirmarem que somos um país de analfabetos, outros dados estatísticos afirmam que apesar da sofrível capacidade de leitura estamos entre os que declaram o maior gosto pela leitura.
A importância da leitura para nossa sociedade transcende o saber ler uma placa, um anúncio, uma bula. Todo o desenvolvimento científico esta baseado na troca de informações, uma troca documentada e transcrita em forma de código, no entanto valorar qual dos dois aspectos da leitura é mais importante para sujeito é uma questão complexa.

A professora Magda Soares afirmou em uma entrevista que o domínio da tecnologia (que é aprender a codificar e decodificar) e o uso desta, não estão dissociados, para a entrada no mundo da escrita. Ainda em um de seus livros critica o fato de se negar à criança o livro esperando que primeiro ela aprenda a decodificar.

Nesse contexto, escola muitas vezes aparece como um lugar importante para o primeiro contanto com o mundo da escrita. No entanto não comparece como espaço responsável por estratégias que facilitam a formação de leitores. Aqueles que ultrapassam o período de alfabetização, ainda terão que sobreviver às fáticas aulas de literatura, digo fáticas pela forma com que a literatura é apresentada, Rubens Alves no texto que já fiz referencia coloca: “Se os jovens não gostam de ler é porque nunca ouviram a leitura feita por um possuído”.

O que vemos hoje na escola, são duas práticas ante o livro que o torna tão pouco aprazível. A primeira ocorre ainda muito cedo na vida escolar e a “divinização” do livro, se faz crer que livro é algo tão fora do contexto da criança que muitas vezes torna difícil a incorporação deste por ela. O segundo e mais comum é a “mania interpretativa”, tudo no texto deve ser decifrado, anula-se o prazer de ler pela insistência de uma interpretação que muitas vezes encalha no disparate, ou ainda o uso da leitura só como respaldo para o ensino de gramática. O que se sucede nas aulas de literatura é um “fatiamento” didático, é uma imposição brusca de algo que deveria proporcionar um dialogo entre autor e leitor, entre gerações, entre ideias.

Claro que de modo algum devemos cair na utopia de que todos devam gostar de literatura, de que todos devam sentir prazer em ler um texto de Machado. No entanto como a leitura é uma prática social complexa a escola não deve simplificá-la e descaracterizá-la e nem muito menos ignorá-la. E isso segundo o próprio PCN significa trabalhar a diversidade textual na complexidade com que são apresentados fora da escola, ou seja, aprender a decodificar textos que nada dizem não cumpre com a formação de um leitor capaz de entender a finalidade comunicativa de um texto.

Hoje no que se vê de literatura infantil nota-se um empobrecimento do texto na tentativa de aproximar o texto das crianças, ao envés de aproximar a criança do texto. Se observarmos os desenhos animados, aos quais essas mesmas crianças assistem, veremos que eles não são empobrecidos em termos de narrativa, nem de trama, nem de problemática, ou conclusão e muito menos na construção do personagem e as crianças entendem, porque o livro, o texto seria diferente? Mesmo com a imagem e a palavra falada, a criança parte do que conhece para compreender (assimilar) o que não conhece. Como o próprio PCN coloca: “As pessoas aprendem a gostar de ler quando, de alguma forma, a qualidade de suas vidas melhora com a leitura”. Desse modo, oferecer textos a criança, textos de qualidade tanto estética quanto em nível de conteúdo é um dos pontos mais relevantes para a formação de um leitor.

0 papos:

Postar um comentário